Loterias: um desperdício de esperança

A crítica tradicional à loteria é que seus jogadores são justamente aqueles com menos recursos para perder. Argumenta-se que a loteria desperdiça dinheiro, drenando a riqueza de quem mais precisa dela. Alguns defensores da loteria, e até mesmo alguns comentaristas especializados em superação de vieses cognitivos, tentaram justificar a compra de bilhetes como uma aquisição racional de fantasia —  pagar um real por um dia de expectativa agradável, imaginando-se milionário.

No entanto, é crucial refletir sobre o que isso realmente implica. Significa ocupar sua valiosa mente com uma fantasia cuja probabilidade real de se concretizar é praticamente nula — uma ínfima chance sobre a qual você, por si só, não pode fazer nada para tornar realidade. O futuro será decidido pelas bolas sorteadas na loteria. Essa fantasia alimenta a ideia de riqueza sem esforço — sem consciência, aprendizado, carisma ou mesmo paciência.

Isso torna a loteria um tipo diferente de sumidouro: um dreno emocional de energia. Ela incentiva as pessoas a investirem seus sonhos e esperanças de um futuro melhor em uma probabilidade minúscula. Se não fosse pela loteria, talvez elas sonhassem em frequentar um curso técnico, abrir seu próprio negócio ou conquistar uma promoção no trabalho — coisas que realmente poderiam fazer, esperanças que as motivariam a se fortalecerem. Em seu estado de devaneio, em sua vigésima representação da fantasia agradável, seus cérebros poderiam vislumbrar uma maneira real de realizar isso. Afinal, para que servem os sonhos e o cérebro?

No entanto, como essa perspectiva limitada pela realidade pode competir com a ilusão artificialmente adocicada de riqueza instantânea — não após conduzir uma startup até sua oferta pública inicial, mas sim na próxima terça-feira?

Francamente, por que não podemos simplesmente dizer que comprar bilhetes de loteria é uma atitude tola? Os seres humanos às vezes agem de forma insensata — isso não deveria ser uma suposição tão surpreendente. Não é surpreendente que o cérebro humano não realize cálculos complexos e não consiga diminuir o valor emocional de uma antecipação agradável por um fator de 0,00000001 sem abandonar completamente a linha de raciocínio. Não é surpreendente que muitas pessoas não compreendam que um cálculo numérico da utilidade esperada deveria anular ou substituir seus instintos financeiros imprecisos e, em vez disso, tratem o cálculo apenas como um argumento que pode ser contraposto a suas antecipações prazerosas — um argumento emocionalmente fraco, já que é apenas uma mera anotação no papel, em vez de uma visão de riquezas fabulosas.

Isso parece suficiente para explicar a popularidade das loterias. Por que tantos defensores sentem-se compelidos a apoiar essa forma clássica de autodestruição?

Superar o viés requer um processo que envolve: (1) perceber o viés, (2) analisá-lo em detalhes, (3) decidir que o viés é prejudicial, (4) encontrar uma solução alternativa e (5) implementá-la. É lamentável quantas pessoas concluem as etapas 1 e 2, mas ficam paralisadas na etapa 3, que deveria ser a mais fácil das cinco.

Os vieses são como limões, não limonada, e não devemos tentar transformá-los em limonada — devemos simplesmente deixar esses limões apodrecerem.